A aula mais importante da minha vida

A aula mais importante da minha vida
Imagem disponível em: https://medium.com/@leonardo_vaz/a-antropologia-filos%C3%B3fica-468bff191afd

        Já estou às margens dos 50 anos. E a cada dia que vivo, mais reflito sobre as possibilidades que tive de aprender. Aliás, amo aprender, estudar, conhecer coisas novas. Por isso mesmo escolhi ser Professora. Com P maiúsculo porque me orgulho de ser o que sou. Por isso pesquiso, busco, leio muito, escrevo…uma coisa que vem me perturbando nos últimos quatro meses é a virada radical que aconteceu na vida de todos nós com o surgimento de uma pandemia horripilante que assusta a quase todos.
       De repente, da noite para o dia as pessoas foram obrigadas a deixar de abraçar, de reunir, de cultuar em conjunto, de jogar em equipe e foram obrigadas a repensar e se adaptar um novo modo de vida. Eu como escritora, quis escrever desde que isso tudo começou, mas me senti muito tímida porque, de repente tanta gente começou a escrever, filosofar, produzir crônicas lindas e sensíveis sobre a realidade e a humanidade e a posteridade. Tenho prometido para meu editor que o texto está chegando, chegando…enfim ele chegou em uma pequena imagem. Minha aula de antropologia, lá no curso de Comunicação Social com uma professora baixinha, bem professora e acima de tudo, humana, muito humana.
         A professora Nei Clara de Lima tinha a missão de ensinar conceitos antropológicos importantes para o entendimento das ciências humanas, mas o que ela talvez não soubesse, é que ela mudou radicalmente o meu jeito de ser. Primeiro fiquei confusa com tantas informações e conceitos sobre choque cultural, sobre etnocentrismo, relativismo e outros termos que embasam o estudo histórico e antropológico da evolução humana.
        Minhas notas eram uma negação porque eu não conseguia entender como acontecia a coisa toda. Sempre havia falhas no meu raciocínio e no primeiro ano de Jornalismo eu fiquei de prova final. Coisa que nunca tinha acontecido em minha vida. E adivinha? A prova foi justamente explicar a história do choque cultural. Na época, eu tinha encontrado um livro muito antigo na biblioteca da Universidade chamado “A ilha das três sereias” que contava a história de pesquisadores e casava super bem com as teorias antropológicas. Também estava retomando um dos meus textos chamado “Amores domados e selvagens” que mudou depois para Redoma de Cristal.
       Colocando os conceitos que a Nei queria me passar em confronto com estes dois livros, consegui explicar sobre a postura etnocêntrica, quando você considera sua cultura a melhor para todos, o seu pensamento como central e correto e sobre a postura relativista, quando você tem seus gostos, seus pensamentos, seu jeito de fazer as coisas, mas compreende que o OUTRO, também tem as suas e o melhor jeito de conviver é deixar claro que cada um tem seu jeito de pensar e que cada um tem o direito de exercê-lo.
        Por isso passei a achar o máximo quando um aluno me criticava pelo jeito autoritário que eu estava agindo, e amei quando fui fazer Ciências da Religião. Uma sala com evangélicos, judeus, budistas, católicos e ateus, heterossexuais, homoafetivos. Uns preconceituosos porque não admitiam a verdade sobre suas religiões, outros homofóbicos porque não admitiam casamento entre gays e ainda racistas porque achavam que negros não tinham capacidade suficiente para filosofar e produzir conhecimento acadêmico.
       Pra finalizar, minha especialização foi feita na mesma universidade onde comecei. Educação para a diversidade e cidadania. E tenho a imensa alegria em dizer que tudo começou lá na faculdade de comunicação com a aula de antropologia, como uma professora baixinha, mas tremendamente gigante pois com suas poucas palavras me fez tão gigante também.
        E tudo volta a ficar confuso depois de olhar para este mundo em que estamos. Aí lembro de algumas frases da ciência. O homem é o ser mais adaptável deste planeta. Também tem instinto de sobrevivência. Pena que em alguns lugares do planeta ainda tem tanta gente que só olha para o próprio umbigo, que se considera o máximo e não passa de mais um espécime que não deu certo. Sim, pois se o ser humano pensa e consegue se adaptar às maiores adversidades que surgem, consegue identificar o OUTRO como diferente, como igual também, porque a dificuldade em dialogar? Porque muitos seres humanos ainda são apenas projetos que antropologicamente não deram certo.

Francimar Bezerra de Almeida
Professora, Jornalista, Escritora

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