Bordar: um acalento para a alma

Bordar: um acalento para a alma
Imagem disponível em: https://www.pinterest.at/pin/767511961467726856/

        O bordado feito à mão é uma rica representação cultural humana que pode ser observada em praticamente todas as sociedades, com inúmeras variações de técnicas, pontos, motivos e formas de aplicação, um pra cada gosto, onde se pode viajar na imaginação, colocar no tecido através do bordado tudo que sentimos e gostamos.
        A história do bordado se mistura com à infância, quando linhas e pontos, que se transformavam em bordados e povoavam os sonhos e o cotidiano de tantas meninas, que junto as suas mães e avós faziam longas tramas no tecido uma verdadeira pintura com a linha. Algumas aprenderam esse ofício nos colégios internos, onde as freiras eram suas mestras. Ao tecer é preciso ter paciência e sensibilidade para fazer uma escolha harmoniosa entre cores e fios, ter persistência, pois é um trabalho demorado e muito delicado.
        Hoje, bordar é um acalento para a alma, pois estamos vivendo um tempo tão conturbado, com tantas batalhas a serem vencidas. À primeira vista, a reprodução de alguns bordados pode parecer extremamente difícil, mas após uma leitura atenta e observação rigorosa das indicações e conselhos,    rapidamente se percebe que esses modelos são, geralmente, de uma facilidade de execução surpreendente.
         Aos oito anos me encantei com um trabalho realizado por uma “sinhorina”, assim eu a chamava por ser pequena e bem magrinha, seu bordado chamava singeleza. Ficava horas olhando ela tecer com aquelas mãos tão pequenas e magrinhas e uma linha fininha que aos poucos ia se transformado em algo tão lindo! Ela usava depois de pronto para colocar na bandeja, na prateleira, no fogão, enfim ela enfeitava toda sua casa com singeleza, mais de singelo e simples não tinha nada.
        Um dia ela me perguntou se eu gostaria de aprender e eu disse que sim, então começou minha peregrinação para tecer com destreza pontos que pareciam simples, só pareciam, pois eu era uma moleca sem muita destreza e coordenação motora naquela época, mas meu aprendizado durou pouco, ela adoeceu e foi bordar no céu. Então acabava ali meu sonho de aprender singeleza, porque nunca mais achei ninguém que fizesse, fui crescendo e da singeleza me esquecendo. Então já adulta descobri o ponto cruz, e entre tapas e beijos aprendi um pouquinho, fiquei tão apaixonada que comprei muitas revistas de ponto cruz, me tornei adulta e o trabalho me ocupava quase todo o tempo, então não tinha tempo para me aperfeiçoar no ponto cruz, mas ainda aprendi a bordar com fita e a fazer alguns pontos de crochê.
        Então após 32 anos de sala de aula, era hora de parar e começar a tecer uma nova trama. Passei a fazer parte de uma associação de bordados, a Associação Feminina de Morrinhos a qual me recebeu com todo carinho e estou num processo de aprendizagem contínua. Hoje, nesse tempo de pandemia, fechada entre os muros de minha casa é o que acalma minha alma, me alivia as tensões do dia a dia, preenche a minha mente, dá asas a minha imaginação e me faz companhia nos momentos de solidão.
        A arte de bordar é uma caixinha de surpresas e contém alimento para a alma, consuma sem moderação. 

Fabiane Alves
Geógrafa, artista plástica, bordadeira

                                                                                                                                               

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