Memórias de uma Aprendiz de PROFESSORA

Memórias de uma Aprendiz de PROFESSORA
CPT NOVA OLINDA DO NORTE AM 05/11/2009 POTASSIO SILVINITA AMAZONIA ESPECIAL DOMINICAL Escola em assentamento rural do INCRA cidade de Nova Olinda do Norte. O local onde hoje estão assentadas as famílais é um antigo campo de exploração de petróleo e tem uma grande reserva de Silvinita ( Potássio ) no subsolo. - Uma grande jazida de Silvinita ( potássio ) foi descoberta no subsolo da amazônia a aproximadamente 200 km de Manaus. FOTO CLAYTON DE SOUZA/AE

           Toda criança tem um sonho de ter uma profissão quando crescer. Eu sempre sonhei em ser médica psiquiatra. Queria ajudar as pessoas a vencerem suas dores, angústias, medos, enfrentar as batalhas da vida sem nunca desistir, tratar da sua mente e não só do seu corpo físico, mas nem todos os sonhos se realizam. Minha mãe lutava muito para criar a mim e minha irmã. Não era fácil nosso dia a dia, e com o passar do tempo eu soube que não conseguiria ser médica, mas Deus tinha um plano para mim. Foi assim que começou minha história de SER PROFESSORA. Aos poucos fui percebendo que o verdadeiro professor não se torna professor, ele nasce professor.
              Comecei a dar aula muito jovem. Eu não poderia imaginar as coisas que me aconteceriam. No início, foi tudo confuso, incerto e incomum. Nunca tinha dormido fora de casa, e agora morava na fazenda, na casa de aluno, dormia ao lado de um paiol. Para quem não sabe, paiol era o lugar onde se guardava o milho seco para tratar da criação. Dormia num colchão de palha de milho, andava na carroceria de caminhão leiteiro. A escola era multisseriada. Tinha alunos até da minha idade. Não foi fácil, mas aos poucos fui me adaptando e não só ensinava como aprendia. Na hora do recreio jogávamos bete (brinquedo onde usávamos uma bola de meia e dois pedaço de cabo de vassoura), colhíamos frutas no cerrado, brincávamos de várias coisas e o tempo foi passando… fui ganhando experiência, fui criando vínculos com aqueles que, até então, eram estranhos e passaram a fazer parte da minha vida. Todos os cantos daquele lugar tinham histórias escondidas.
              Fui professora por muitos anos na zona rural, mas um novo desafio se iniciava. Ser professora de jardim numa escola da zona urbana. Foi o maior presente que ganhei! Eram tão pequeninos, choravam por suas mães, as mãozinhas duras ainda sem coordenação motora, com dificuldade de pegar no lápis, mas com carinho e muita paciência. Pouco a pouco conquistei o amor de todos e começava assim nossa trajetória no caminho do conhecimento. Éramos tão felizes!  Rolávamos no chão sem sapatos, brincávamos de fazer montinho em cima de mim, desenhávamos, pintávamos, contávamos histórias. Sim, eles também tinham tantas histórias para contar! Devagar começaram a traçar as primeiras letras. Com eles, descobri uma das minhas grandes paixões: a ARTE. Todo dia, chegava bem cedo para desenhar algo no quadro para recebê-los, eles acham o máximo. Foi um tempo feliz.
               Mais tarde, ministrei aulas em todas as séries do Ensino Fundamental I. Sempre tentei ser uma professora diferente, fazer da aula algo prazeroso. No EJA, descobri o prazer de ajudar aqueles alunos que apesar da idade, precisavam voltar para a sala de aula. Foi muito mágico tudo que vivi com eles. Produzimos muito, ganhei seu afeto, seu respeito, quebramos tabus e muitas barreiras foram vencidas; vi muitos se tornarem grandes vencedores.
         O mesmo aconteceu com os adolescentes. O autoritarismo com eles não funcionava. Como professora que era, aprendi a lidar com eles também e ganhei sua confiança, seu carinho. Era tão gratificante que consumia minhas horas planejando cada detalhe das aulas. Queria momentos especiais, aulas especiais. Nas férias, pesquisava algo novo. Ganhei todos os sorrisos. Nossa convivência quebrou as barreiras entre professor/aluno. Nossa aprendizagem foi significativa e prazerosa.
           Ao longo de minha vida pela educação tive muitas experiências que me ajudaram a ser uma pessoa melhor e quero finalizar dizendo que foi uma luta atrás da outra, verdadeiras guerras mundiais, mas tudo ia se ajeitando…sempre que olhei para meu aluno como iguais, de coração aberto, de braços abertos. Foram viagens que fizemos juntos. Para muitos, abri seus olhos para o mundo. Foram muitas lágrimas de emoção por aprender!
             Não me esqueço da expressão do Seu José, depois de visitar o planetário, com lágrimas nos olhos: “Professora, agora posso morrer feliz! Nunca, na minha vida, vivi uma experiência tão maravilhosa! Hoje estou realizado! ” Foi incrível! Me segurei para não chorar. 
Ser professor é tanta coisa… sou grata por nascer professora.

Ser professor é sair de cena, sem sair do espetáculo, é preparar o caminho e deixar que o aluno caminhe com seus próprios pés”. (Jairo de Lima) 

     

 

 

Fabiane Alves da Silva 
Professora de nascença

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